Um papo com Luciana Campelo e Bárbara Ipê

Um papo com Luciana Campelo e Bárbara Ipê

Valéria Pergentino entrevista Luciana Campelo e Bárbara Ipê para o Blog da Solis

Nesta conversa para o Blog da Solisluna, Luciana Campelo e Bárbara Ipê compartilham os bastidores da criação de Mamãe pode – Um manifesto amoroso. A autora fala sobre a experiência que deu origem ao livro e sobre o desejo de mostrar às crianças que o amor também passa pela liberdade de cada pessoa continuar sendo quem é. A ilustradora revela como transformou essas ideias em imagens, inspirada pela escuta de outras mães, por sua própria experiência com a maternidade e pela busca de uma representação sensível e verdadeira desse universo.

O resultado é um livro que acolhe mães, pais, crianças e todos os leitores dispostos a lembrar que amar também é abrir espaço para que cada um possa existir em toda a sua potência. 

Luciana Campelo escritora

1. Mamãe pode nasce de uma afirmação muito simples, mas profundamente transformadora. Em que momento você sentiu que essa história precisava ser escrita?

A maternidade sempre foi um desejo profundo. Após viver um luto, experimentei de novo a grandeza de ter um filho nos braços. Tudo ficou muito grande em mim. Fui lançada para essa vivência intensa que misturava muitas emoções. Gerar, parir, amamentar, deixar morrer algo em nós… tudo que fez parte desse tempo, me faz nascer outra. Precisava reconhecer essa nova mulher que surgia. 

Alguns anos depois aconteceu a pandemia de covid 19. O momento seria de abertura para o mundo, mas justo nessa hora, o mundo se fechou. Nesse tempo escrevi uma lista de desejos para depois. Ao ler a lista, percebi que a mulher estava viva e muito íntegra.  Achava que era importante contar para o meu filho, que além da mãe, em mim, viviam outras. 

2. O livro apresenta uma maternidade que acolhe, mas que também reconhece a necessidade de a mulher continuar existindo para além do papel de mãe. Por que era importante trazer esse olhar para as crianças?

Acredito que cuidado e liberdade devem coexistir. Penso que a mãe que vive para além desse papel, ensina para as suas crianças que a liberdade de ser o que se deseja, é um valor importante.

Permitir que os filhos assumam suas escolhas é um ato amoroso.

Outro aspecto importante é a necessidade de uma rede de afetos para a criança, com o objetivo de compartilhar o cuidado. Dessa forma, a mãe pode ser outras, e os filhos ganham uma vivência mais enriquecida.

3. Há uma imagem muito bonita da mãe que, no início, se sente "como um vestido pendurado em um cabide no armário". Como surgiu essa metáfora e o que ela representa para você?

Sentir-se como um vestido pendurado no armário é guardar um aspecto importante de si mesma para depois. Algo ficou em suspenso.

Quando o cuidado materno se tornou urgente, ou quando a mãe imaginou que ela precisava sustentar a vida, os vestidos, ou todas as outras mulheres que existiam nela, se recolheram. Havia uma urgência em cuidar.

O vestido guardado também  insinua a promessa do depois. 

4. Embora fale da maternidade, o livro termina convidando todos os leitores a acreditarem nas próprias possibilidades. Você acredita que esta história dialoga também com pessoas que não são mães?

O livro abre a possibilidade de imaginar e viver muitas vidas. O texto convida leitores de todas as idades, mães ou não,  a fugir de um script pronto e experimentar o novo, na intenção de um viver mais interessante e genuíno.

5. O subtítulo define a obra como "um manifesto amoroso". O que você gostaria que esse manifesto despertasse em quem fecha o livro depois da leitura?

Sempre penso que a maior coisa que existe no mundo é o amor.

O desejo de conversar com o meu filho sobre essa mãe mulher, de apresentar para ele algo que ultrapassa a função da mãe, é uma manifestação de amor. Também tenho amor pela palavra. Gosto de pensar que as relações crescem na tessitura da palavra amorosa. 

Gostaria de despertar no leitor o sentimento de que é possível conjugar o amor com a liberdade de ser o que se é.

Com amor a gente pode mais.

A mamãe pode, e você também.

Bárbara Ipê ilustradora

1. As ilustrações acompanham a transformação da personagem com muita delicadeza, revelando emoções que nem sempre aparecem nas palavras. Como foi construir visualmente esta narrativa?

A narrativa visual do livro é fruto de um processo criativo que durou cerca de um ano. Este processo passou por um amadurecimento importante desde as primeiras trocas com a autora Luciana e a editora Valéria. Imaginar e ilustrar a personagem Mãe que vivencia a complexidade das emoções com a chegada de um filho partiu de muitas inspirações, entre elas a experiência pessoal na maternidade, a conversa com o texto sensível escrito pela autora, a escuta e observação de outras mães em suas respectivas fases de vida e bagagens individuais. A maternidade é um tema que atravessa minhas pesquisas e criações, me inspira e me faz refletir diariamente sobre as relações, as artes, o amor, crescimento e autoconhecimento. 

2. Em vários momentos, a sensação de acolhimento convive com a de descoberta e liberdade. Como se deu as escolhas de cores, composição ou símbolos que ajudaram você a expressar esses sentimentos?

A vida pulsa em movimentos de recolhimento e expansão. A maternidade também é atravessada por esses movimentos, assim como o desenvolvimento das crianças, e assim como a criação artística. Quando pensei sobre o puerpério, por exemplo, o elemento água invadiu meus desenhos, por refletir um ser que acabou de sair de uma longa imersão na barriga da mãe e que, em seus braços ainda sente este envolvimento. A Mãe também está imersa neste mundo de leite, aconchego e recolhimento. Isso refletiu na escolha da pintura em aquarela. Conforme a criança cresce, a Mãe começa a experimentar alguns movimentos de expansão, de liberdade, de reencontro consigo mesma, ao mesmo tempo em que o Filho experimenta conquistas de autonomia. A partir destes momentos, no livro, cores mais vivas aparecem, elementos externos ganham mais foco e a terra e as árvores refletem os crescimentos individuais de Mãe e Filho, a partir de um vínculo regado por muita água ao longo do tempo. 

3. Ilustrar um livro sobre maternidade pode facilmente cair em imagens idealizadas. Como você buscou representar uma mãe real, com suas fragilidades e sua força?

A maternidade, como mencionei, é um tema que me atravessa muito enquanto mãe, filha, artista e indivíduo parte de uma sociedade. Penso que refletir sobre a maternidade real é dar espaço de voz para as mães, é um convite para refletirmos sobre a importância das redes de apoio, sobre a saúde física e emocional das famílias, e sobre os vínculos profundos de amor e sobre o cuidado. Nesta caminhada, é muito importante para mim, enquanto artista ilustradora, criar imagens que representam a maternidade real, seus limites e dificuldades, sua força e potência. O livro Mamãe Pode - Um Manifesto Amoroso é um convite sensível e especial para as famílias se sensibilizarem sobre a maternidade real.

4. Como foi o diálogo com o texto da Luciana? Houve alguma passagem que despertou imediatamente uma imagem ou que desafiou sua imaginação?

Assim que li pela primeira vez o texto da Luciana me senti emocionada e representada. Fiquei muito contente com o convite para pensar na construção da narrativa visual deste livro. Inicialmente também me senti bastante desafiada pois os primeiros desenhos refletiam a minha experiência pessoal e momento de vida. Precisei realizar um exercício de escuta e mergulho em outras experiências de puerpério, maternidade e construções narrativas para desenvolver um caminho mais representativo e sensível nas ilustrações, o que foi um processo de amadurecimento importante.

5. Existe alguma ilustração do livro que tenha um significado especial para você? Por quê?

Sim, eu tenho um carinho especial pela ilustração dos pés na água corrente. Para mim essa imagem carrega tantos símbolos! Ela representa um momento de transição em que a criança tem uma experiência sensorial nova e está aprendendo a andar, enquanto a Mãe ainda precisa lhe dar um apoio. A água corrente representa a passagem da vida, e dá vazão à água que inunda a Mãe toda na ilustração anterior, no mergulho do puerpério. 

Saiba mais sobre o livro Mamãe pode publicado em 2026, editado pela Solisluna Editora 🐟

 

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