Para celebrar o universo da infância, dos afetos e das descobertas, nossa editora Valéria Pergentino conversou com Sálua Chequer, educadora, professora de música e contadora de histórias, sobre seu primeiro livro para as infâncias “É de ler, de comer e de brincar”, uma obra que convida crianças e adultos a viverem a leitura com o corpo, os sentidos e a imaginação.
Como nasceu a ideia do livro “É de ler, de comer e de brincar”?
A ideia deste livro nasceu muito a partir das memórias das perguntas que os meus filhos me faziam. Era sempre assim: quando eu saía, eles perguntavam: “vai trazer o quê?”. E, ao voltar, vinham logo: “trouxe? E é de ler, de comer ou de brincar?”. Eu achava isso de uma beleza muito verdadeira da infância, essa expectativa, essa curiosidade, essa forma tão simples e encantadora de se relacionar com o mundo. E o que eu podia levar para eles quase sempre transitava por esses três universos: uma brincadeira, uma comidinha, uma fruta e, muitas vezes, um livro. O livro sempre esteve muito presente na minha vida e na deles. Eu costumo dizer isso: ler, comer e brincar são experiências que o livro consegue reunir. Um livro pode nos alimentar por dentro, pode nos fazer brincar com as palavras, com as histórias e pode nos envolver de tal forma que a gente não quer que ele acabe. Eu, até hoje, tenho dificuldade de terminar um livro de que gosto muito, fico nesse estado de encantamento, querendo permanecer ali. Dependendo da história, a gente brinca, imagina, experimenta outros caminhos. Esse é o grande poder da leitura: ela amplia nossos olhares, abre possibilidades e nos convida a enxergar a vida de outras maneiras.
O título reúne três ações muito presentes na infância. Como elas se encontram na história?
O título reúne três ações muito presentes na infância — ler, comer e brincar —, que se entrelaçam de forma muito natural. Ele nasce dessa pergunta das crianças, mas também traduz algo maior: o que o livro pode nos proporcionar. Um livro tem essa potência de nos convidar a brincar com as palavras, de nos fazer saborear histórias e de nos envolver na leitura de forma prazerosa. Não são experiências separadas, elas acontecem juntas. Na infância, isso fica ainda mais forte. Existe um encantamento genuíno, o prazer de abrir um livro, de sentir o cheiro das páginas, de virar uma folha e descobrir o que vem depois. É uma experiência sensorial e afetiva muito rica. Por isso, o título é, ao mesmo tempo, simples e profundo. Ele traduz essa vivência completa que o livro oferece: de alegria, descoberta e imaginação.

A música e a oralidade têm uma presença forte no seu trabalho. Elas também atravessam esse livro? De que maneira?
Sim, a música e a oralidade fazem parte de quem eu sou, são forças que me movem. Tenho formação em música e, desde a infância, carrego uma relação muito forte com o som, com o ritmo e com a palavra falada. Essa presença aparece naturalmente na minha escrita, porque acredito na musicalidade do texto, no valor da escuta e na potência das histórias contadas em voz alta. A oralidade aproxima, cria vínculo e dá vida às palavras. De alguma forma, tudo isso se encontra no meu trabalho: a música, a palavra e a experiência de contar histórias que tocam, envolvem e permanecem. 4. As ilustrações têm um papel muito especial nos livros infantis. Como as ilustrações se entrelaçam com a história e o que elas ajudam a contar que as palavras, às vezes, não dizem? A ilustração é fundamental. A ilustração é uma linguagem. A ilustração traduz aquilo que, muitas vezes, a própria palavra não traduz. Eu vejo a ilustração como algo que tanto caminha em paralelo com o texto, como agrega valores incríveis ao imaginário. Ela agrega cor, forma e possibilita outras interpretações do texto. Eu acho que é uma parceria belíssima. Tive uma sorte muito grande com a indicação pela editora, desta pessoa linda, a Camila Alemay, me emocionei muito quando vi as ilustrações. É uma linguagem que caminha em paralelo, como eu disse, mas agregando ainda mais ao texto. Ela caminha ali dizendo: “olha, eu estou aqui”. É uma companhia belíssima para o texto.

Na sua visão, qual é o papel da leitura na infância, especialmente quando ela se conecta com o corpo, com o brincar e com o cotidiano?
O papel da leitura na infância, especialmente quando conectada ao corpo, é profundamente formador. Ela contribui para o desenvolvimento integral da criança, ampliando o vocabulário, estimulando a imaginação, fortalecendo a compreensão e ajudando a construir um olhar mais sensível e atento para o mundo. Além disso, o trabalho com os sentimentos acontece de forma mais natural e acessível. Quando a criança envolve o corpo na leitura, ela não apenas escuta ou lê uma história, ela vive essa experiência. Usa o corpo para inventar personagens, para dramatizar cenas, para expressar emoções. Isso torna a leitura mais lúdica, mais envolvente e mais prazerosa. É algo que dialoga diretamente com práticas muito presentes na infância, como a mímica e o uso dos gestos para se comunicar. A criança fala também com o corpo. Quando associamos o texto literário ao corpo, ampliamos as possibilidades de significado. Os sentimentos ganham forma, aparecem com mais intensidade, e a experiência da leitura se torna mais rica. É uma parceria potente, que fortalece o vínculo com a história e contribui de maneira muito significativa para o desenvolvimento da criança.

Que tipo de experiência você deseja despertar nas crianças (e nos adultos) com essa obra?
A experiência que eu gostaria muito que as pessoas tivessem com o livro é que elas se lembrassem de algumas coisas. Eu valorizo muito a memória, valorizo muito aquilo que a poeta já disse, que a memória não esquece o que amou. E, com certeza, as pessoas vão ler e vão se lembrar de como brincavam, de como a mãe brincava, de como o pai brincava, das pessoas que estavam envolvidas ali dentro de casa, brincando, no meu caso, sempre com brincadeiras e com risadas. Então, desejo que este livro desperte esse carinho, esse bem-querer pela memória, por aquilo que foi importante, que aparentemente era pequeno, mas que marca para a vida toda. Despertar esse bem-querer que está guardado em cada um que vai ler a história.

Como foi o seu encontro com a Solisluna Editora?
Eu fui apresentada à Solisluna pela minha querida amiga Iêda Marques, uma pessoa que agrega inúmeros valores na minha vida. Dentre esses valores, está o de ter me colocado em contato com esta editora. Eu fico impressionada, já ficava, mesmo antes de ter esse vínculo de publicação, com a competência, com os livros publicados. Eu sempre fiquei muito impressionada com o trabalho, com o zelo, com o cuidado, com o respeito. E agora, que estou tendo esse contato tão próximo, com um sonho realizado, que é o de ter um livro, eu estou vendo muito, muito claramente tudo aquilo que eu imaginava acontecer. Um respeito absoluto pela obra. Qualquer modificação que seja sugerida é ouvida, é conversada, tem uma justificativa para ser feita. A delicadeza das escolhas, da ilustração, tudo isso tem sido muito novo para mim e tem me agregado muito. É um sonho — sonho que é aquilo que move o ser humano — e esse sonho que estou vivendo é ter um livro publicado por uma editora pela qual eu sempre tive o máximo respeito, a máxima admiração pelo trabalho, pelas publicações, pelas pessoas, pelos autores que têm seus livros publicados pela Solisluna. E, além do mais, eu acho o nome lindo, acho muito bonito. Eu estou falando e me lembrando das pessoas que compõem essa editora, é uma história de grande admiração.

É de ler, de comer ou de brincar? de Sálua Chequer e ilustrações de Camila Alemany, foi editado no Brasil em março de 2026 e está disponível em nosso site.
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